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Educação Infantil

Dificuldades de aprendizagem

na educação infantil

                                                                             Luciana Vellinho Corso

O processo de aprender se inicia desde que o bebê nasce. Suas primeiras experiências de aprendizagem são muito significativas, pois é através delas que a criança vai estruturando as bases afetivas, cognitivas e sociais nas quais irá se apoiar para realizar novas aprendizagens e desenvolver-se de forma saudável.

A educação infantil já se constitui num espaço de construção de conhecimento e de trocas significativas. Este espaço pode formar crianças que irão desenvolver posturas mais autônomas, críticas, criativas diante do aprender, ou, ao contrário, posturas dependentes, passivas, inseguras que acabam por as colocarem em situação de risco de desenvolverem futuros problemas de aprendizagem. É por isso que, em alguns casos, as dificuldades de aprendizagem surgidas em séries escolares avançadas estão relacionadas com as primeiras experiências que a criança desenvolve na educação infantil (Weiss, 1992). Tais experiências vividas por um sujeito em processo de formação de sua identidade deixam marcas, sejam elas positivas ou negativas.

Normalidade x Dificuldade

É muito comum ouvirmos indagações dos pais fazendo comparações com os colegas da mesma idade de seus filhos:

“Porque Júlia ainda não fala? Todas as crianças da turma dela dizem algumas palavras”.

Meu filho ainda não caminha será que ele tem algum problema?”

“O desenho do Rafael é só rabisco, isso é assim mesmo?”

Em primeiro lugar, para evidenciarmos se há de fato uma dificuldade de aprendizagem ou um atraso no desenvolvimento, é fundamental que se possa construir um conhecimento profundo sobre os processos de aprendizagem e desenvolvimento infantil. Quais as características do desenvolvimento referentes à faixa etária da criança: nível de pensamento, linguagem, uso do corpo, trocas sociais, expressão gráfica? Caso contrário, corremos o risco de considerar etapas normais do desenvolvimento como sendo problemas ou falhas.

Em segundo lugar, é preciso conhecer as individualidades de cada criança. De que forma se expressa? De que brinca? Como brinca? Quais as suas particularidades? Em que áreas se destaca? O que ainda não consegue fazer? Qual o momento de vida em que se encontra?

É muito importante que possamos diferenciar os problemas de aprendizagem das dificuldades momentâneas vividas pela criança em função de alguma situação estressora. A expressão de comportamentos regressivos, do tipo: mordidas, choros para ficar na escola, desinteresse e pouca concentração nas atividades desenvolvidas, baixa tolerância à frustração, dificuldade no relacionamento com os colegas, são compreensíveis quando a criança está diante de, por exemplo, uma troca de professora, separação dos pais, nascimento de um irmão, doenças na família. Tais situações podem interferir de forma negativa no aprendizado porque mobilizam alto nível de ansiedade nos pequenos. É preciso que fique claro que tais manifestações são transitórias e, com o apoio da escola e da família, devem ser superadas.

Não resta dúvida de que, se conhecermos os conflitos próprios de cada período de desenvolvimento, estaremos aptos a assumir posturas não patologizantes. Sabemos que atitudes relacionadas com a impaciência aparecem em certas idades como modo de expressar a insatisfação da criança por não obter de forma imediata seu desejo satisfeito (arrancar o brinquedo da mão do amigo, chorar incontrolavelmente, puxar o cabelo, empurrar). Espera-se que, por volta dos 4 anos, a criança seja capaz de resolver seus conflitos através da linguagem (linguagem como moduladora de comportamento) e do respeito às regras e combinações elaboradas pelo grupo, deixando de lado reações mais agressivas. Para podermos avaliar se tais atitudes são problemáticas ou não, vai depender da idade da criança, da frequência e intensidade deste tipo de expressão e da existência ou não de outros comportamentos mais adequados para expressar a frustração.

Ocorre, entretanto, uma situação diferente quando nos deparamos com atitudes e comportamentos que já não deveriam aparecer com tanta frequência. É preciso ficar atentos em relação àquelas crianças que constantemente evidenciam conduta antissocial, dificuldades para estabelecer vínculos, capacidade para brincar desfocada, desabilidade no desenho, recorte e pintura, torpeza motora, dificuldade na articulação de palavras, fala muito infantilizada. Condutas desta ordem, quando já deveriam ter sido superadas pela criança, além de limitarem a capacidade para aprender, podem ser reveladoras de patologias que necessitam ser diagnosticadas, pois a identificação precoce é capaz de agilizar a intervenção adequada.

Por que algumas crianças demoram mais para aprender e outras menos?

Precisamos considerar que os processos de aprendizagem e desenvolvimento são sequenciais, ou seja, se dão por etapas. As etapas são as mesmas para todos os indivíduos, porém existe uma trajetória individual e um ritmo maturacional próprio de cada criança, que necessita ser respeitado. Isto nada mais é do que a expressão da diversidade que está presente em todos os aspectos da aprendizagem. Diversidade de tempo, de ritmo, de forma de aprender, de caminhos para aprender, de preferências, entre tantas outras.

É certo que a aprendizagem é um fenômeno complexo que envolve toda uma gama de componentes. Na verdade, são muitos os fatores que influenciam o desenvolvimento e a aprendizagem humana. Dorneles (2002) destaca alguns destes fatores agrupando-os em 4 categorias ligadas a: aspectos ambientais (ambiente no qual a criança se insere); aspectos sociais (sociedade, cultura do indivíduo); aspectos genéticos (ainda não determinados com precisão pela ciência); e aspectos internos ao indivíduo (história de vida, fatores orgânicos, fatores psicológicos). Todos estes fatores interagem para determinar o ritmo de desenvolvimento e das aprendizagens de cada pessoa.

Atender a diversidade na educação e, especificamente, na educação infantil é um dos maiores desafios que precisamos enfrentar, porque o desrespeito ao tempo da criança e a sua forma de aprender somados a não valorização do seu saber, são pontos de partida para a construção de dificuldades de aprendizagem.

 

Referências:

CORSO, Luciana. Dificuldades de aprendizagem na educação infantil.  Pátio Educação Infantil, ano vi, março/jun 2008.

DORNELES, Beatriz.  Conhecimentos atuais sobre os processos de aprendizagem e suas implicações para a escola. Fazeres e Saberes Educativos. Getúlio Vargas, ano I, n. 1, p. 22-29, jun., 2002.

WEISS, M.L. Psicopedagogia clínica: uma visão diagnóstica. Porto Alegre: Artmed, 1992.